SAGRADO Acadêmico apresenta artigo de Ana Beatriz Soares, Andressa Vizotto, Emilly Villela e João Antonio Pires, da 3ª série 2, sobre o amor idealizado em "A Moreninha"
Educação

No Projeto SAGRADO Acadêmico, os educandos da 3ª série 2, analisam a obra A Moreninha, de Joaquim Manoel de Macedo, refletindo sobre o amor idealizado e os costumes da sociedade carioca do século XIX. O artigo propõe uma investigação sobre como o romance urbano revela valores, comportamentos e relações sociais da burguesia da época.
Confira, na íntegra, o artigo produzido pelos educandos:
A Moreninha: o amor idealizado na sociedade carioca urbana
Ana Beatriz Soares
Andressa Vizotto
Emilly Villela
João Antonio Pires
Introdução
O movimento, denominado Romantismo, é marcado pela subjetividade, porém em três etapas que destacam temáticas distintas. Em 1836, iniciou-se com o objetivo de idolatrar a pátria, mas em 1853, o foco se tornou as relações e os sentimentos, tornando-se conhecido como Ultrarromantismo. Por fim, essa corrente volta para a nação, entretanto, de uma forma crítica e real, sem a idealização utilizada anteriormente.
A Moreninha, escrita por Joaquim Manoel de Macedo, é uma importante obra do Romantismo, pois retrata o romance urbano, o cotidiano dos jovens burgueses naquela época e as nuances entre como cada indivíduo demonstra os seus sentimentos. Esse trabalho tem como objetivo investigar e compreender, por meio de uma análise, como o autor abordou a sociedade em sua obra. Para tanto, o trabalho aborda uma breve fundamentação teórica que reconheça o contexto histórico, estilo de escrita do autor e como a construção da Moreninha reflete as expectativas românticas de amor e sociedade na época, bem como a valorização de ritos sociais e representação da burguesia carioca.
Por meio de personagens específicos e convívios essenciais, nota-se uma tendência de linguagem coloquial e direta, uma vez que grande parte dos diálogos ocorre entre jovens, ou entre amigos e familiares. Além disso, observa-se desde o início a idealização da mulher, como figura bela, serena e encantadora.
Nascimento do romance urbano no Brasil: costumes, amor e burguesia
Ambientada no Rio de Janeiro, a obra retrata o universo dos filhos da elite burguesa, especialmente os estudantes universitários. Publicada em 1844, pertence à primeira geração romântica, marcada pela valorização da identidade nacional. Diferentemente da segunda geração, conhecida como ultrarromântica, que enfatizava o subjetivismo, Macedo concentra-se na representação do cotidiano urbano da elite carioca, inaugurando o romance urbano no Brasil. Essa nova vertente literária aproxima-se da experiência real do leitor, utilizando uma linguagem mais coloquial e direta, além de retratar os costumes, ritos sociais e relações afetivas da burguesia emergente.
O início da obra é marcado pelo convite feito entre jovens para passar alguns dias em uma ilha, fato que já indica um costume comum entre os jovens da elite: o lazer em locais privados e afastados da cidade, mas ainda assim regidos por normas sociais rígidas. Durante esse retiro, ocorrem jantares, passeios e saraus — formas típicas de entretenimento da classe alta carioca, que mesclavam diversão, cortejo amoroso e vigilância moral.
Essas festas não são apenas celebrações, mas verdadeiros rituais que marcam uma “entrada” na sociedade. Participar desses eventos com vestimentas adequadas, demonstrar habilidades na dança e portar-se com elegância nas conversas constituía formas de expressar pertencimento à classe burguesa. É nesse ambiente que se dão as interações entre Augusto, Carolina e os demais personagens, onde as convenções do flerte e da conquista são seguidas quase como um código de etiqueta.
A descrição dessas festas — com músicas, jogos, piqueniques e conversas animadas — revela uma cultura urbana em formação no Rio de Janeiro, marcada pelo desejo de imitar os costumes europeus (Schwarz, 2014), mas também enraizada nas características tropicais e coloniais da sociedade brasileira. As festas funcionam como vitrines da cultura burguesa: exibem não apenas riqueza, mas modos de ser, de falar e de amar.
Durante a trama, é possível observar traços dos costumes sociais e da estrutura hierárquica da época. Um exemplo marcante ocorre quando Augusto empresta seu escravo ao amigo Fabrício. Mesmo demonstrando preocupação com o atraso na devolução, sua irritação posterior é descarregada no escravo, revelando o tratamento desumanizado e a normalização da escravidão no cotidiano burguês (Siqueira, 2013-2014).
Outro ponto importante da narrativa é o modo como a escravidão surge naturalizada, refletindo a realidade social de então. A breve, mas significativa, cena em que Augusto repreende seu escravo evidencia como, mesmo personagens simpáticos, reproduziam o sistema sem maiores questionamentos — fato que humaniza a narrativa e denuncia, mesmo que indiretamente, as contradições morais da elite da época.
No capítulo XIII, somos apresentados a Paula, ex-ama de Carolina, que permanece vivendo com a avó da jovem. Essa configuração familiar representa o centro de sociabilidade feminino, no qual as jovens estão sob a vigilância e tutela de uma pessoa mais experiente e sábia. Esse espaço doméstico vigiado reforça o papel tradicional das mulheres como guardadoras da moral, promotoras dos bons costumes e sustentadoras da ordem familiar e social da elite carioca do século XIX.
O Romantismo valorizava profundamente o sentimento e a idealização amorosa, sobretudo na figura feminina. Carolina, a “moreninha”, encarna esse ideal romântico ao mesmo tempo em que apresenta traços de vivacidade, ironia e inteligência. Segundo o narrador: “Travessa, inconsequente e às vezes engraçada; viva, curiosa e em algumas ocasiões impertinente” (Macedo, 2021, p. 11). A personagem equilibra a doçura idealizada com uma personalidade marcante, mas sem transgredir os limites do comportamento esperado para uma jovem burguesa.
A narrativa centraliza-se na promessa feita por Augusto de jamais se apaixonar, um juramento que será desafiado por Carolina. A quebra desse voto simboliza o triunfo do sentimento sobre a razão e a inevitabilidade do amor idealizado — traço típico da estética romântica. O aparente conflito entre os dois, causado por uma promessa feita na infância, reflete a importância de valores como honra, lealdade e destino amoroso, ao mesmo tempo que enfatiza a esperteza e protagonismo da personagem feminina, que reconhece a conexão entre passado e presente amoroso.
A voz narrativa, no romance, assume papel fundamental para criar a proximidade com o leitor e conduzir a história no contexto da burguesia urbana carioca do século XIX. Conforme observa Massaud Moisés (2004, p. 145), “o narrador é a voz que conta a história, podendo situar-se dentro (narrador-personagem) ou fora da narrativa (narrador-observador). Sua escolha determina a perspectiva da narrativa, o grau de conhecimento dos fatos e a relação com o leitor”.
Ainda sobre a narração, Alfredo Bosi (2002, p. 210) endossa a fala de Moisés ao dizer que “no romance, o narrador assume diferentes posições, ora como personagem, ora como voz externa onisciente, o que define a construção do ponto de vista e a maneira como a história será apresentada ao leitor”. Em A Moreninha, embora não seja um narrador-personagem, a voz narrativa utiliza estratégias de interlocução direta, como comentários irônicos e momentos de diálogo com o leitor, criando uma sensação de cumplicidade e informalidade, rompendo a rigidez formal dos romances anteriores.
O uso da memória como elemento estruturante é essencial ao enredo. A promessa é o que move a narrativa e reconfigura o amor presente. Esse uso da lembrança afetiva é comum na literatura romântica, que valoriza os laços emocionais e os momentos simbólicos do passado como forma de fundamentar os sentimentos atuais. O amor é assim apresentado como algo inevitável e transcendental.
Na capa de uma das edições da obra, é possível analisar que a Moreninha exala inocência e leveza, apesar de, como citado, ser travessa, a menina tem um ar jovial de pureza feminina. “No Romantismo brasileiro, as personagens femininas são, geralmente, construídas como tipos idealizados, símbolos de pureza, delicadeza e virtude, mais do que indivíduos com complexidade psicológica profunda” (Bosi, 2002, p. 145). No caso de A Moreninha, Carolina representa esse tipo idealizado da mulher romântica, símbolo de inocência e graça, alinhada com os valores sociais da elite carioca.
A burguesia carioca do século XIX organizava suas expectativas em torno da juventude feminina: formação moral, vida doméstica regulada, sociabilidade vigiada e casamento como destino ideal. O romance, ao apresentar essas jovens como personagens centrais (mesmo que em torno de um protagonista masculino), contribui para reforçar e também documentar os papéis femininos durante essa época. A imagem retrata toda a delicadeza que a menina tinha em consequência dos cuidados carinhosos da família.
Joaquim Manuel de Macedo contribui para a popularização da literatura no Brasil ao romper com a formalidade excessiva e adotar, em A Moreninha, uma linguagem leve, próxima da oralidade, e um tom claramente conversacional. A estrutura narrativa da obra — com capítulos curtos, cenas dinâmicas e muitos diálogos — sugere um desejo de aproximar o texto da experiência do leitor comum, sobretudo o leitor urbano da burguesia.
Essa escolha estratégica estabelece intimidade com o leitor, faz com que a trama pareça mais realista e cria um ambiente de identificação. Ao retratar personagens jovens, que falam como falariam na vida real, em situações de amizade, paquera, festas e discussões cotidianas, Macedo inaugura um modelo de romance urbano voltado ao entretenimento, que não deixa de lado sua função moralizante, mas que é sobretudo envolvente e leve.
Além disso, o narrador assume uma postura quase cúmplice, por vezes conversando diretamente com o leitor: “nossas belas conhecidas bordam; nossos alegres estudantes estão de livro na mão” (Macedo, 2021, p. 78) ou fazendo comentários bem-humorados sobre os personagens, contribuindo para esse tom informal. Essa estratégia narrativa antecipa técnicas que seriam exploradas por outros autores, como Machado de Assis.
Considerações finais
A análise da obra A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, permite uma imersão crítica no contexto sociocultural do Brasil do século XIX, especialmente no ambiente urbano da elite carioca. Como primeiro grande sucesso do romance brasileiro, a obra ocupa lugar de destaque no Romantismo nacional, inaugurando um estilo narrativo leve, acessível e profundamente marcado pelas emoções, idealizações e convenções sociais da época.
Ao ambientar sua narrativa em espaços típicos da burguesia, Macedo dá cor com precisão aos rituais que definiam o comportamento social dos jovens da elite. O romance destaca o papel das aparências, da moral pública e dos vínculos familiares como pilares estruturais dessa sociedade. As interações entre os personagens, regidas por etiqueta e pela vigilância constante, refletem uma realidade na qual o sentimento amoroso era moldado por regras sociais bem definidas.
A construção da figura feminina por meio da personagem Carolina — a Moreninha — sintetiza a idealização romântica da mulher: bela, pura, espirituosa, mas ainda assim nos limites esperados para a feminilidade burguesa. Ao mesmo tempo em que ela encarna o ideal romântico, também revela traços de autonomia e inteligência, contribuindo para tornar sua figura complexa e cativante. Essa representação da mulher, somada à presença da ama e da avó, ajuda a compreender como se formava e se sustentava o ideal feminino no imaginário social da época.
As personagens da obra, especialmente Carolina, a Moreninha, e Augusto, exemplificam tipos românticos construídos para refletir valores e expectativas da época. Dessa forma, a obra não só oferece um entretenimento literário, mas também serve como um documento cultural que ilumina as estruturas sociais e afetivas do Brasil oitocentista.
Concluindo, A Moreninha se apresenta como uma obra literária que cumpre várias funções: inaugura o romance brasileiro com características próprias, retrata fielmente os costumes e valores da sociedade burguesa do século XIX, e promove uma reflexão — ainda que sutil — sobre temas como amor, papel da mulher, juventude, status social e escravidão. Sua importância ultrapassa o valor histórico; ela permanece viva enquanto documento literário e cultural, abrindo espaço para o leitor contemporâneo refletir sobre as permanências e transformações em nossa sociedade.
A reflexão apresentada pelos educandos evidencia como a literatura pode atuar como um importante instrumento de compreensão das dinâmicas sociais e culturais do Brasil do século XIX. Ao analisar a obra A Moreninha, o texto destaca como o romance urbano revela costumes, valores e comportamentos da burguesia carioca, além de evidenciar a idealização do amor e os papéis sociais atribuídos à mulher naquele contexto.
Ao abordar aspectos como as relações afetivas, os rituais sociais da elite e a naturalização da escravidão, a análise amplia o olhar sobre a sociedade da época, incentivando a reflexão sobre permanências e transformações ao longo da história.
Iniciativas como o Projeto SAGRADO Acadêmico expressam o compromisso do SAGRADO – Rede de Educação com a formação intelectual e humana dos educandos, valorizando a produção de conhecimento e o diálogo sobre temas relevantes. Nesse contexto, os artigos desenvolvidos no projeto são publicados semanalmente no Jornal Noroeste de Nova Esperança, fortalecendo a relação entre educação, sociedade e pensamento acadêmico.

