SAGRADO Acadêmico apresenta artigo de Artur Guimarães da Silva, Felipe Peres de Oliveira, João Pedro F. Jordão e Lucas Valério da Silva, da 3ª série 2, sobre idealização, desigualdade e resistência em A Escrava Isaura

Educação

08 de Maio de 2026
SAGRADO Acadêmico apresenta artigo de Artur Guimarães da Silva, Felipe Peres de Oliveira, João Pedro F. Jordão e Lucas Valério da Silva, da 3ª série 2, sobre idealização, desigualdade e resistência em A Escrava Isaura

O Projeto SAGRADO Acadêmico valoriza a produção intelectual dos educandos, incentivando a reflexão crítica sobre obras literárias e suas relações com a sociedade. Nesta edição, o artigo analisa o romance A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, destacando questões como a idealização feminina, as desigualdades sociais e as formas de resistência presentes na narrativa.

Confira, na íntegra, o artigo produzido pelos educandos:


A Escrava Isaura: idealização, desigualdade e resistência

Artur Guimarães da Silva
Felipe Peres de Oliveira
João Pedro F. Jordão
Lucas Valério da Silva

No livro A Escrava Isaura, escrito por Bernardo Guimarães, retrata-se um momento do Romantismo brasileiro. Em suas páginas, o autor aborda a escravidão como grande foco, evidenciando uma realidade historicamente marcada pela escravização de pessoas negras. Nesse contexto, a narrativa apresenta um elemento incomum para a época: uma personagem escravizada branca. Dessa forma, vem à tona outro fator, a idealização da mulher, que fica escancarada com as ações de Álvaro, o vilão do conto romântico, que busca a protagonista incansavelmente, levando à objetificação de Isaura.

Nesse ponto, como lembra Massaud Moisés (2004, p. 219), “o Romantismo no Brasil se manifesta pela exaltação do ideal, que, por vezes, desvia-se da realidade para criar tipos moralmente e fisicamente perfeitos”. Surge, assim, a questão: como as minorias da nossa sociedade podem traçar um caminho de sucesso e liberdade em busca de um futuro melhor para suas vidas?

Diante disso, busca-se examinar de que forma a narrativa literária oferece uma análise da escravidão por meio da protagonista Isaura, uma escrava branca projetada por uma escrava e um feitor. Busca também ponderar sobre as limitações dessa perspectiva, especialmente no que diz respeito à discriminação da mulher afrodescendente e à idealização da opressão no século XIX.

Isaura é construída como uma heroína quase intocável, com uma aparência e comportamento que reforçam os ideais românticos de pureza e virtude, criando um contraste intencional com a crueldade da escravidão que ela enfrenta. A descrição detalhada de sua beleza e do sofrimento reforça essa idealização: “Isaura, de olhos límpidos e alma resignada, resistia às adversidades com uma serenidade quase sobrenatural” (Guimarães, 2008, p. 45).

Além disso, o livro retrata a brusca desigualdade social marcada por diferenças significativas nas condições de vida e poder entre os diferentes grupos sociais, com destaque para a exploração dos escravos e a concentração de riqueza nas mãos da burguesia da época. Como exemplo, citar-se-á a protagonista Isaura, que era tratada de forma diferente das demais escravas por ser branca, recebendo um tratamento que a aproximava das damas da casa e sendo educada em música, línguas e outras artes.

Embora ocorra uma mudança de perspectiva quando, após recusar relações íntimas com o feitor, Isaura percebe que, ainda escrava, estava fadada a não ter opções de escolha. Isso fica explícito em “Apesar de sua pele clara e sua educação refinada, Isaura não podia escapar das correntes invisíveis da escravidão, que a aprisionavam em um destino traçado pela sociedade” (Guimarães, 2008, p. 78).

Nesse sentido, Antônio Candido (2000, p. 25) lembra que “a literatura não é um reflexo mecânico da realidade, mas sim uma mediação, que reordena os elementos da vida de acordo com uma visão de mundo”, o que ajuda a entender por que Guimarães cria uma escrava branca para questionar a escravidão, mas o faz nos limites ideológicos de seu tempo. Essa verdade é evidenciada no fragmento: “Álvaro olhava para Isaura como se ela fosse uma posse, um objeto que poderia ser tomado a qualquer momento, sem considerar sua vontade ou sofrimento” (Guimarães, 2008, p. 102)

A escravidão é um fato central na história literária de Isaura, mostrando todos os absurdos vividos pela protagonista, como a falta de liberdade e a restrição de direitos vigentes na época, além das condições precárias de vida. Surge, então, a carta de alforria como divisor de águas na escravatura brasileira, possibilitando, em alguns casos, o fim do cativeiro, embora dependente de grande poder aquisitivo. A Lei Áurea, anos depois, decretaria o fim oficial da escravidão no Brasil, em 13 de maio de 1888.

As mulheres na sociedade da época tinham papel fundamental nos engenhos, muitas vezes assumindo funções maternas para os filhos dos senhores. Já as damas burguesas eram exaltadas devido ao momento romântico, idealizadas como puras, belas e delicadas. Como observa Massaud Moisés (2004, p. 222), “a heroína romântica é antes um modelo a ser admirado do que um ser humano de carne e osso”. Mesmo ambientada no Brasil do século XIX, A Escrava Isaura permanece atual ao examinar dinâmicas de poder, gênero, raça e classe social. A idealização da protagonista branca demonstra tanto uma censura à escravidão quanto os limites de uma perspectiva romântica, que atenua ou negligencia o sofrimento das escravas negras.

Ademais, o romance explicita a marginalização e o silenciamento da mulher, especialmente da mulher negra, vista apenas como mão de obra ou objeto de desejo. As mulheres da elite eram valorizadas sob uma ótica idealizada, com padrões de beleza, pureza e submissão. Essa dicotomia evidencia a desigualdade que separava senhores e escravos, bem como mulheres brancas e negras, em uma estrutura patriarcal e escravista.

Guimarães utiliza descrições detalhadas da beleza e da serenidade de Isaura para reforçar sua pureza quase idealizada, enquanto o vilão Álvaro é representado por uma linguagem agressiva que enfatiza a opressão. Essa contraposição reforça a moralidade típica do Romantismo e evidencia o embate entre inocência e tirania. Como explica Massaud Moisés (2004, p. 220), “o Romantismo constrói seus personagens segundo oposições claras, que ajudam a definir o conflito moral e a mensagem ética da narrativa”.

Embora a narrativa se concentre em Isaura, uma escrava “branca”, pouco espaço é dado às mulheres negras escravizadas, que na realidade sofriam com uma dupla opressão racial e de gênero. Essa ausência reflete uma limitação do Romantismo brasileiro em representar a complexidade social. Conforme observa Wallace de Moraes (2025, p. 12), “o racismo institucional na sociedade pós-abolição contribuiu para a negação histórica das experiências das mulheres negras, tanto na literatura quanto na historiografia”. Essa invisibilização denuncia as lacunas do período literário e social que Guimarães representa em sua obra.

Nesse ponto, Antonio Candido (2000, p. 33) ressalta que “toda obra literária é um sistema de valores, uma forma de ver e ordenar o mundo, e por isso traz as marcas do meio em que foi produzida”, evidenciando que o romance de Guimarães, mesmo crítico, reflete contradições de seu tempo. Em suma, a obra não apenas critica a brutalidade da escravidão, mas também instiga debates sobre como as narrativas literárias moldam ou omitem as experiências das minorias. Pensar sobre isso é fundamental para entendermos o passado e construirmos, no presente, rumos mais equitativos para todos os segmentos da sociedade.

 


 

A reflexão apresentada convida a analisar a obra A Escrava Isaura para além da narrativa, evidenciando como o romance problematiza a escravidão ao mesmo tempo em que revela limitações na representação das desigualdades de raça e gênero. Ao discutir a idealização da protagonista e a invisibilização das mulheres negras, os educandos constroem um olhar crítico que articula contexto histórico, valores do Romantismo e questões sociais ainda presentes, demonstrando maturidade analítica e sensibilidade na abordagem do tema.

O Projeto SAGRADO Acadêmico reforça, assim, o protagonismo dos educandos na produção de reflexões significativas, dando espaço para que suas vozes sejam ouvidas e valorizadas. Como extensão desse trabalho, os textos também são publicados semanalmente no Jornal Noroeste de Nova Esperança, ampliando o alcance dessas produções e fortalecendo ainda mais a formação crítica, ética e intelectual dos educandos.

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Matéria por Maria Isabella Rubio - Serviço de Comunicação