SAGRADO Acadêmico apresenta artigo de Beatriz de Castro Luz e Manuella Gibin Ribeiro, educandas da 3ª série 2, sobre os desafios do envelhecimento em "A Máquina de Fazer Espanhóis"

Educação

31 de Julho de 2026
SAGRADO Acadêmico apresenta artigo de Beatriz de Castro Luz e Manuella Gibin Ribeiro, educandas da 3ª série 2, sobre os desafios do envelhecimento em "A Máquina de Fazer Espanhóis"

A literatura tem o poder de ampliar o olhar sobre temas humanos e sociais, promovendo reflexões que ultrapassam as páginas dos livros. No Projeto SAGRADO Acadêmico, os educandos analisam obras literárias sob diferentes perspectivas, articulando conhecimentos de diversas áreas e desenvolvendo o pensamento crítico por meio da produção de artigos de opinião.

Nesta edição, as educandas da 3ª série 2, Beatriz de Castro Luz e Manuella Gibin Ribeiro, apresentam uma reflexão sobre o romance "A Máquina de Fazer Espanhóis", de Valter Hugo Mãe. O artigo discute o envelhecimento, a solidão, a memória, a identidade e a valorização da dignidade humana, relacionando a narrativa literária a questões presentes na sociedade contemporânea.

Confira, na íntegra, o artigo produzido pelas educandas:


Entre memórias e perdas: os desafios do envelhecimento em “A Máquina de Fazer Espanhóis”
Beatriz de Castro Luz e Manuella Gibin Ribeiro

“O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada.”

Cora Coralina

O envelhecimento da população é uma realidade cada vez mais presente no Brasil, especialmente na Região Sul, que possui uma das maiores proporções de idosos do país. Segundo dados do Censo de 2022, 17,6% da população sulista tem 60 anos ou mais, percentual superior à média nacional. Nesse contexto, a obra “A Máquina de Fazer Espanhóis”, de Valter Hugo Mãe, apresenta uma narrativa envolvente que conduz o leitor pelos sentimentos e conflitos vividos na velhice.

O envelhecimento é um processo natural e contínuo, que acarreta transformações físicas, emocionais e sociais ao longo da vida. Mais do que uma questão biológica, essa etapa está relacionada à experiência acumulada, às mudanças na visão de mundo e à forma como cada indivíduo se percebe diante da sociedade. Contudo, apesar do aumento da expectativa de vida, muitos idosos ainda enfrentam situações de exclusão, carência e invisibilidade. Desse modo, discutir essa temática torna‑se fundamental para promover respeito, inclusão e valorização daqueles que contribuíram para a construção da sociedade.

Escrita em Portugal, após o fim do regime salazarista, a obra surge num momento de renovação da literatura portuguesa. Nesse cenário, o livro dá voz a quem normalmente não aparece, de forma comovente, representando a vida e as transformações pelas quais todos passam.

A história acompanha Antônio Jorge da Silva, que tem na morte da esposa o ponto de virada de sua existência. É perceptível que o protagonista se fecha na solidão, perdendo a capacidade de compreender e sentir a vida, visto que seus gostos e interesses são abalados pela ausência. Esse quadro revela como o isolamento reflete diretamente na própria essência humana.

O autor aborda temas como identidade, perda afetiva e solidão, como se vê no fragmento: “a minha vida estava no lar, talvez o reconfortar‑se com a mulher pela decisão oficial de deixá‑la ali e partir.” Desse modo, a narrativa evidencia como o isolamento social e a perda de vínculos afetivos interferem profundamente no sofrimento do personagem.

Com uma linguagem poética, sensível e reflexiva, a obra valoriza a escuta do idoso, explorando memórias e sentimentos de forma lúcida. Sua mensagem principal convida a refletir sobre a beleza e a dignidade humana, e sobre o sentido da existência ao longo do tempo.

Valter Hugo Mãe trata também da exclusão social ligada à idade. Após a morte da esposa, o protagonista passa a refletir sobre a perda de autonomia e o surgimento da invisibilidade. Essa situação pode ser relacionada às ideias do sociólogo Zygmunt Bauman sobre a modernidade líquida, na qual os indivíduos que não correspondem aos padrões de produtividade tendem a ser marginalizados.

Outro ponto central é a desconstrução da identidade diante das transformações da vida. Mesmo sofrendo, Antônio consegue se erguer e ressignificar sua trajetória, mostrando que a velhice é um processo contínuo de mudança. O trecho “não fala daquilo que lembra” destaca o papel da memória na formação da identidade, moldada pela experiência e pelas relações vividas.

Além disso, a narrativa demonstra que a velhice pode significar também uma forma de resistência diante das dificuldades. Mesmo cercado de perdas e incertezas, Antônio encontra motivos para seguir em frente. Outro trecho reforça essa ideia: “com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que os vivos e o mundo não se tornem desumanos”. Ele reflete sobre a dor da ausência e a necessidade de reconstruir laços que dão sentido à vida.

Em síntese, “A Máquina de Fazer Espanhóis” traz uma reflexão profunda sobre o envelhecimento e a busca por sentido diante das perdas inevitáveis. Ao abordar questões que ainda afligem milhões de pessoas, o romance revela a necessidade de valorizar a dignidade humana, o respeito às diferenças e a preservação da memória.

 


 

A reflexão apresentada pelas educandas evidencia como a literatura de Valter Hugo Mãe transcende a narrativa sobre a velhice ao provocar discussões profundas acerca da memória, da identidade, da solidão e da dignidade humana. Ao analisarem a trajetória de Antônio Jorge da Silva, as educandas constroem uma leitura crítica sobre os impactos do envelhecimento, da perda de vínculos afetivos e da exclusão social, articulando referências literárias, filosóficas e sociológicas para compreender desafios que permanecem presentes na sociedade contemporânea.

O artigo demonstra maturidade analítica ao relacionar a experiência do protagonista às transformações demográficas, às reflexões sobre pertencimento e às consequências da invisibilidade social enfrentada por muitos idosos. Ao aproximar a obra literária de questões humanas universais, as educandas revelam sensibilidade, capacidade de interpretação e pensamento crítico diante de uma temática de grande relevância social. O Projeto SAGRADO Acadêmico reafirma, assim, o protagonismo dos educandos na produção de reflexões consistentes e socialmente significativas, valorizando a pesquisa, a análise e a construção de argumentos fundamentados. Como extensão desse trabalho, os textos também são publicados semanalmente no Jornal Noroeste de Nova Esperança, ampliando o alcance das produções acadêmicas e fortalecendo a formação ética, intelectual e humana dos educandos.

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Matéria por Maria Isabella Rubio - Serviço de Comunicação