SAGRADO Acadêmico apresenta artigo de Issa Yumi Tasaki, educanda da 1ª série 1, sobre a construção do idioma dos brasileiros
Educação
O projeto SAGRADO Acadêmico valoriza a produção intelectual dos educandos e promove o aprofundamento de temas relacionados às diferentes áreas do conhecimento. Nesta edição, a educanda Issa Yumi Tasaki, da 1ª série 1, apresenta uma análise sobre a construção histórica da Língua Portuguesa, refletindo sobre como a escrita, as transformações culturais e os acontecimentos políticos influenciaram a formação do idioma.
Em seu artigo, a educanda percorre diferentes períodos da história, desde o surgimento da escrita até a consolidação do galego-português como base para o português atual, destacando que as línguas são resultado de processos contínuos construídos pelas sociedades ao longo do tempo.
Como se construiu o idioma dos brasileiros?
Issa Yumi Tasaki
A escrita é uma das criações mais importantes da história, permitiu registrar o que antes só existia na memória e na fala. Entre as primeiras formas estão os hieróglifos, surgidos por volta de 3000 a.C. no Egito Antigo, e a escrita cuneiforme — considerada a mais antiga — desenvolvida na Mesopotâmia em 3300 a.C. Com ela, o conhecimento e as histórias deixaram de ser passageiros e passaram a durar, possibilitando o aparecimento da literatura, das leis e dos registros históricos. Conforme explica Walter J. Ong, a escrita grava a linguagem e reorganiza o pensamento, tornando-o mais estruturado e fixo, o que ajuda a preservar as línguas por gerações.
Antes, as narrativas eram orais e transmitidas de geração em geração por meio da memória e da performance. Narrar era um ato coletivo, em que cada contador podia adaptar e recontar a história. Com o surgimento da escrita, essas narrativas deixaram de ser apenas lembranças e passaram a ser registradas. Muitas se transformaram em literatura, deixando de depender só da oralidade e passando a existir como textos. Assim, a escrita preserva as histórias, mas também as redefine.
Durante a Idade Média, consolidou-se como principal meio de registro do conhecimento, especialmente na religião, na política e na cultura. O latim era a língua oficial das igrejas e dos documentos formais, mas a população já se comunicava por idiomas populares derivados do latim vulgar. Com o tempo, essas línguas ganharam espaço também na escrita. Esse foi um momento decisivo: o latim, antes predominante, foi perdendo espaço para as línguas românicas, entre elas o galego-português, que daria origem ao português que usamos hoje.
Na Península Ibérica, esse processo deu origem ao galego-português, tronco comum do português e do galego atuais. Surgido do latim vulgar, foi usado no noroeste da região, principalmente entre os séculos XII e XIV, quando começou a ser registrado também na escrita, especialmente em produções como as cantigas. Nessa fase, não havia uma separação clara entre os dois idiomas: era uma única forma de expressão. Com mudanças políticas, como a formação do Reino de Portugal, o idioma foi se diferenciando, dando origem a duas línguas distintas. Fica claro, portanto, que o português não surgiu sozinho, mas é fruto de um processo histórico compartilhado.
O galego-português foi uma das primeiras línguas românicas a apresentar uma produção literária relevante fora do latim. Seu uso nas cantigas medievais mostrou que os idiomas populares ganhavam legitimidade também na escrita, o que contribuiu para sua valorização cultural. A evolução marcou o início de uma tradição escrita que se consolidaria nos séculos seguintes.
Sua produção literária se dividia em três tipos: as cantigas de amor, que expressavam o sentimento e o sofrimento do homem apaixonado; as cantigas de amigo, em que a voz feminina revelava saudade e espera; e as cantigas de escárnio e maldizer, marcadas pela crítica e pela ironia. Entre os principais autores dessa época estão Dom Dinis — que atuou tanto na política quanto como trovador —, Paio Soares de Taveirós e João Garcia de Guilhade[2]. Suas obras mostram que, mesmo em formação, o idioma já era capaz de expressar sentimentos, ideias e visões de mundo.
Com o tempo, fatores políticos e territoriais levaram à separação definitiva. Em Portugal[3], a consolidação do reino fez com que o português se tornasse oficial, usado na administração, na literatura e durante a expansão marítima. Já na Galícia, o galego sofreu forte influência do castelhano, ficando restrito ao uso popular por muitos anos. Essa diferença mostra que a evolução das línguas depende não só de questões linguísticas, mas também de contextos históricos, políticos e culturais.
Entender essa trajetória ajuda a compreender melhor a origem do português e de sua literatura. Estudar o galego-português é revisitar o passado e é perceber que ele não desapareceu, mas se transformou, deixando marcas claras na estrutura, no vocabulário e na cultura do idioma atual. As línguas não surgem por acaso, são construídas ao longo da história, e a escrita garante que, ainda hoje, essa herança continue viva.
A reflexão apresentada evidencia como a Língua Portuguesa se constituiu a partir de diferentes processos históricos, culturais e sociais, envolvendo a relação entre oralidade, escrita e as transformações pelas quais as línguas passam ao longo do tempo. Ao abordar a origem do galego-português, a influência do latim e a consolidação do idioma português, a educanda desenvolve uma análise sobre a construção da linguagem como patrimônio cultural e expressão da trajetória dos povos.
O Projeto SAGRADO Acadêmico reforça, assim, o protagonismo dos educandos na construção de reflexões academicamente relevantes, incentivando a pesquisa, o pensamento crítico e a ampliação do repertório histórico e linguístico. Como extensão desse trabalho, os textos também são publicados semanalmente no Jornal Noroeste de Nova Esperança, ampliando a circulação dessas produções e fortalecendo a formação crítica, ética e intelectual dos educandos no SAGRADO - Rede de Educação.