SAGRADO Acadêmico apresenta artigo de Marcello Maricato Marangoni e Henrique dos Santos Hipolito, educandos da 3ª série 2, sobre a luta dos povos originários contra o apagamento histórico
Educação
O Projeto SAGRADO Acadêmico valoriza a produção intelectual dos educandos e incentiva a pesquisa e a reflexão crítica sobre diferentes questões sociais, culturais e históricas. Nesta edição, os educandos Marcello Maricato Marangoni e Henrique dos Santos Hipolito, da 3ª série 2, apresentam uma análise sobre a luta dos povos originários contra o apagamento histórico, tendo como ponto de partida a obra A Terra dos Mil Povos, de Kaká Werá Jecupé.
A partir da obra, os educandos refletem sobre a invisibilização dos povos indígenas ao longo da história brasileira, relacionando aspectos como desigualdade social, educação, valorização cultural, pertencimento e preservação do patrimônio imaterial. O artigo também evidencia a importância da literatura produzida a partir de uma perspectiva indígena para a compreensão da trajetória, da resistência e das contribuições desses povos para a sociedade brasileira.
Confira, na íntegra, o artigo produzido pelos educandos:
A luta dos povos originários contra o apagamento histórico na obra de Kaká Werá
Marcello Maricato Marangoni
Henrique dos Santos Hipolito
O Brasil, apesar de sua grande diversidade cultural, ainda apresenta desigualdades significativas em relação aos povos indígenas, um exemplo disso é a educação. Dados do Censo de 2022 mostram que a taxa de alfabetização entre os indígenas com 15 anos ou mais é de 84,9%, abaixo da média nacional de 93%, enquanto a população branca chega a 95% — mais do que o dobro da população indígena. Esses dados revelam dificuldades históricas de acesso e permanência na educação, refletindo um cenário de exclusão social.
Esse cenário dialoga com a obra literária “A terra dos mil povos”, de Kaka Werá Jecupé, que estuda e aponta a atual invisibilização enfrentada pelos povos indígenas ao longo da história brasileira. Demonstrando como a desigualdade social ainda afeta diretamente o reconhecimento, a valorização e as oportunidades destinadas a essas populações.
A princípio, a obra foi escrita em um período de pouca representatividade dos povos originários, influenciando na visibilidade desses povos perante o governo. Kaka Werá detalha dados específicos que marcaram a trajetória dos direitos adquiridos, como a anistia de indígenas na Amazônia, que influenciou diretamente nas decisões tomadas na Constituição de 1988. Assim, foi possível minimizar parte dos direitos e possibilitar uma maior participação dessa parcela significativa da população em âmbitos mais amplos no cenário contemporâneo.
Kaká Werá retrata a história como uma autobiografia. Ele usa de figuras indígenas para explicar e refletir, sendo ele mesmo um narrador personagem, em 1ª pessoa, que busca refletir sobre temas como desigualdade social e a dificuldade na valorização das culturas originárias, criticando o etnocentrismo enraizado no Brasil.
A narrativa aborda a diversidade cultural e a falta de visibilidade e valorização dos povos indígenas no Brasil, proporcionando a história a partir de uma visão indígena. Dessa forma, o autor usa de uma linguagem poética, acessível e autobiográfica, permitindo que o leitor mergulhe na história e consiga refletir sobre temas como a pluralidade das culturas indígenas e como esses povos foram marginalizados e esquecidos pelo Estado durante décadas.
Para o crítico literário Alfredo Bosi, o modernismo brasileiro busca a identidade nacional. Nesse contexto, dialogando com o autor Kaka Werá em sua obra “A terra dos mil povos”, por meio da valorização da cultura e identidade dos povos indígenas, é possível observar que temas como o aprimoramento da cultura indígena, valorização do patrimônio imaterial e resgate histórico, possibilitam reaver e preservar a identidade dos povos originários.
Um dos temas principais da obra é o combate ao apagamento cultural e a valorização do patrimônio imaterial. O autor Kaka Werá cita como forma de resistência a memória cultural se molda no “ensinamento da tradição, que é a forma original da educação nativa, que consiste em deixar o espírito fluir e se manifestar por meio do povo, aquilo que foi passado pelo pai, pelo avô e pelo tataravô, que se faz relevante até os dias atuais”.
Outro tema abordado é o pertencimento, presente no trecho: “Em troca de canoas, chapéus, facas e outros objetos como ferramentas, que lhes davam, os índios cortavam, desbravavam, serravam, queimavam e tocavam o próprio solo”. Atitudes que refletem a continuidade, através do distanciamento e do desprezo com os temas nativos, onde a dificuldade de percepção por conta de interesses econômicos é política.
Contudo, como contribuição e reflexão da história, há um reconhecimento dos povos indígenas, como o próprio observou no final do século XX, os olhos e a mente da humanidade começaram a reconhecer os povos nativos como culturas diferentes das civilizações oficiais e valorizaram contribuições sociais e ambientais deixadas pelos guerreiros que passaram. O acontecimento de grande relevância para a criação de leis que garantem os direitos indígenas.
Desse modo, a obra se torna relevante em ambientes de debates contemporâneos por sua grande importância na valorização e reconhecimento dos povos indígenas. Assim, sendo reconhecida nacionalmente e auxiliando posteriormente na reivindicação dos direitos indígenas e na preservação histórica e cultural de um povo excluído por séculos. Nesse contexto, estudar essa obra literária ainda nos dias atuais se faz necessário para compreender a história e cultura indígena, e na formação de um entendimento crítico sobre a exploração e exclusão a que esses povos foram submetidos.
A reflexão apresentada pelos educandos evidencia a importância da obra A Terra dos Mil Povos para compreender os processos históricos de apagamento, exclusão e invisibilização dos povos indígenas no Brasil. Ao abordar questões como desigualdade social, pertencimento, identidade, memória e valorização cultural, o artigo destaca a resistência dos povos originários e a necessidade de preservar seus saberes e patrimônios culturais.
O Projeto SAGRADO Acadêmico reforça, assim, o protagonismo dos educandos na construção de reflexões academicamente relevantes, incentivando a pesquisa, o pensamento crítico e a ampliação do repertório histórico e cultural. A partir da análise da obra de Kaká Werá Jecupé, os educandos ampliam o debate sobre a importância do reconhecimento dos povos originários e da preservação de sua história e identidade no cenário contemporâneo.