SAGRADO Acadêmico apresenta artigo de Natálya Furoni, educanda da 1ª série 2, sobre preconceito linguístico e diversidade na língua portuguesa

Educação

06 de Maio de 2026
SAGRADO Acadêmico apresenta artigo de Natálya Furoni, educanda da 1ª série 2, sobre preconceito linguístico e diversidade na língua portuguesa

O Projeto SAGRADO Acadêmico valoriza a produção intelectual dos educandos, incentivando a reflexão crítica sobre temas relevantes da sociedade. Nesta edição, a educanda Natálya Furoni, da 1ª série 2 do Colégio Coração de Jesus, Unidade Educacional do SAGRADO - Rede de Educação, apresenta uma análise sobre o preconceito linguístico e a importância de reconhecer a diversidade da língua portuguesa como expressão legítima das vivências humanas.

Confira, na íntegra, o artigo produzido pela educanda:


FALAR DIFERENTE NÃO É FALAR ERRADO

Natálya Furoni

Quando alguém diz ‘‘nós foi ao mercado’’ e recebe, em resposta, uma correção constrangedora ou um olhar de reprovação, não se trata apenas de uma questão gramatical, mas também de um julgamento social. O preconceito linguístico, uma prática recorrente no Brasil, mostra-se um dos mais implícitos e, ao mesmo tempo, prejudiciais mecanismos de exclusão. Em um país com desigualdades regionais, étnicas e socioeconômicas fortemente presentes, a língua se tornou uma área de disputa de poder, onde certas formas de falar são ‘‘corretas’’ e outras, marginalizadas. Defender o respeito e o reconhecimento às variedades da língua portuguesa não é defender o erro, mas sim a dignidade humana.

O linguista brasileiro Magnos Bagno, em sua obra “Preconceito Linguístico: o que é, como se faz”, questiona o mito de uma língua única e imutável, muito presente na mentalidade coletiva. Para Bagno, o preconceito linguístico se baseia em julgar de forma negativa a fala de pessoas específicas com base em critérios nada científicos. A língua, como qualquer fenômeno humano vivo, é marcada pela diversidade e constantes variações, sejam sociais, históricas ou até regionais. Portanto, não existe uma única forma ‘‘certa’’ de falar português, apenas a forma que seja adequada à situação. 

A diversidade linguística do português brasileiro é ampla. No tópico regional, evidenciam-se as entonações e vocabulários que diferenciam o sotaque gaúcho do nordestino, o carioca do mineiro. No tópico social, diferenciam-se as falas de grupos com maior ou menor acesso à escolarização. No tópico situacional, percebe-se a mudança de registro que ocorre de forma natural: ninguém fala com o chefe do mesmo modo que fala com os amigos. Essas variações não são erradas ou imperfeitas, mas sim a prova viva que a língua é dinâmica, moldando-se a partir das experiências humanas. 

O problema central não está na variação, mas no modo como ela é interpretada e hierarquizada. Ao julgar como erradas as falas de um trabalhador rural ou de um morador da periferia, não se julga apenas a língua, mas a própria pessoa, seu lugar de origem, sua classe social. A conexão entre fala e valor humano não vem de hoje, ela é profundamente consolidada. Essa desvalorização linguística provoca a exclusão ao mercado de trabalho, à vida acadêmica e ao espaço público daqueles que falam de forma diferente do padrão.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu traz uma importante base teórica para compreender esse fenômeno. Bourdieu mostra que a língua não é apenas um meio de comunicação, mas é também um capital simbólico que foi distribuído de forma desigual entre os grupos sociais. Quem domina a variedade linguística de prestígio, obtém mais sucesso nas interações sociais, ao contrário de quem não a domina, que é frequentemente desvalorizado antes mesmo de ser ouvido. A norma culta não é uma herança natural ou universal, mas sim uma construção social feita e mantida pelos grupos dominantes para manter suas posições de poder. Portanto, colocá-la como única forma de expressão é uma ação política disfarçada de questão pedagógica.        

A escola ocupa um lugar central nesse debate, embora nem sempre atue de forma inclusiva. Stella Maris Bortoni-Ricardo, pesquisadora pioneira da sociolinguística educacional no Brasil, argumenta, em “Educação em Língua Materna: a sociolinguística na sala de aula”, que o ensino tradicional de língua portuguesa tem privilegiado a norma padrão, negligenciando as variações trazidas pelos alunos. Ao colocar as variantes como ‘‘erros’’ que precisam ser corrigidos, a escola não apenas ignora o repertório linguístico dos estudantes, mas também transmite a mensagem implícita de que sua língua e, por extensão, sua cultura não possui valor. Há de se considerar que a norma padrão tem seu lugar, o problema é tratá-la como única forma legítima.

Acerca disso, é fundamental incluir nos currículos escolares uma educação linguística que valorize a diversidade e desconstrua a ideia de ‘‘erro’’. Profissionais da educação devem ser formados para apoiar e reconhecer as diferentes formas de falar de seus alunos, não julgá-las ou hierarquizá-las. Nas empresas, nas instituições públicas e na mídia, a consciência sobre o preconceito linguístico deve crescer, pois são nesses espaços que a exclusão se manifesta, o que impacta negativamente a trajetória de vida das pessoas. Atuar contra o preconceito linguístico é sinônimo de combater a intolerância, que se faz muito presente no cotidiano.

A língua portuguesa é um patrimônio coletivo, construído por séculos de encontros, conflitos e interações entre povos indígenas, africanos, europeus e tantos outros. Dizer que existe somente uma forma “correta” é empobrecer essa herança e atacar a identidade de milhões de falantes. Quando ouvimos o outro sem julgá-lo pelo modo de falar, não estamos apenas praticando a tolerância, mas principalmente o respeito. E respeitar a diversidade da língua é, antes de tudo, respeitar as diversidades da vida.

 


 

A reflexão apresentada amplia o olhar sobre a língua portuguesa ao evidenciá-la como um fenômeno social, histórico e profundamente ligado às relações de poder. Ao problematizar o preconceito linguístico e suas consequências, a educanda articula referenciais teóricos e contextos sociais para defender o respeito às diferentes formas de expressão, demonstrando consistência argumentativa e sensibilidade diante de uma questão ainda presente no cotidiano.

O Projeto SAGRADO Acadêmico reforça, assim, o protagonismo dos educandos na produção de reflexões significativas, abrindo espaço para que suas vozes sejam reconhecidas e valorizadas. Como extensão desse trabalho, os textos também são publicados semanalmente no Jornal Noroeste de Nova Esperança, ampliando o alcance dessas produções e fortalecendo a formação crítica, ética e intelectual dos educandos.

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Matéria por Maria Isabella Rubio - Serviço de Comunicação